[Mochilão 14] Dia 5: Medellín


Algumas informações sobre Medellín:

- É a segunda maior cidade da Colômbia, com 2,5 milhões de habitantes. 

- É a capital da Antioquia, a "Minas Gerais da Colômbia". 

- Foi durante 15 anos a cidade mais violenta do mundo (até 2003). No ano mais violento (1991) chegou a ter a exorbitante taxa de 381 homicídios/100 mil habitantes, quase 5 vezes mais que a capital mais violenta do Brasil atualmente, João Pessoa. 

- Medellín, de acordo com as estatísticas de criminalidade de 2014, é atualmente mais segura que a maioria das capitais brasileiras, incluindo aquelas que tem uma falsa imagem de "sossegadas", como Curitiba, Porto Alegre, Natal e Aracaju.

- Foi a sede do Cartel de Medellín de Pablo Escobar nos anos 80 e 90, o período mais violento da cidade.

- Pablo Escobar pagava US$2.000 para cada capanga seu que matasse um policial. 

- Pablo Escobar chegou a ser o sétimo homem mais rico do mundo, de acordo com a revista Forbes. Chegou até a propor pagar a dívida externa da Colômbia. 

- O Cartel de Medellín controlava 80% do comércio de cocaína do mundo no início dos anos 90.

- Vários atentados com carros-bomba aconteceram na cidade no início dos anos 90. Os autores dos atentados eram os inimigos de Pablo Escobar, como os integrantes do arqui-rival cartel de Cali e os "pepes" ("Perseguidos por Pablo Escobar").

- Com a morte de Pablo Escobar em 1993, o Cartel de Medellín chegou ao fim, e desde então, a cidade conseguiu aos poucos dar a volta por cima, sofrendo uma transformação radical. 

- A criminalidade em Medellín nos últimos 20 anos caiu mais de 90%. 

- Medellín é um milagre. Muitos a consideravam um caso perdido 20 anos atrás. Era uma terra de ninguém. Muitos moradores durante os anos mais violentos se mudaram de lá fugindo da violência. Hoje é uma cidade festeira, cheia de atrações, e que recebe cada vez mais turistas estrangeiros. 

- Infelizmente ainda há muito preconceito e desconhecimento a respeito desta cidade no Brasil, e são muito poucos os brasileiros que visitam esta cidade. Vi muitos turistas europeus e americanos pelas ruas da cidade, mas nenhum brasileiro. 

- É a cidade mais desigual da Colômbia. Até mesmo para nós brasileiros, acostumados a ver a desigualdade de perto, chama muito a atenção o imenso abismo existente entre o lado rico e pobre da cidade. 

- Foi eleita a cidade mais inovadora do mundo em 2013 pela ONG americana Urban Land por ter melhorado a mobilidade de moradores que moram nas imensas favelas que ocupam as montanhas dos bairros pobres. Medellín tem um eficiente sistema de metrô e teleféricos, que inspiraram o Rio na construção do teleférico do Alemão e da Providência.  

- Medellin lembra muito Belo Horizonte. Ambas tem mais ou menos o mesmo tamanho,  ficam num vale cercado por montanhas, e seus aeroportos ficam loooooonge da cidade. Os "paisas" ou "antioqueños", como são conhecidos os habitantes locais, lembram os mineiros: além da simpatia e da hospitalidade, são bastante boêmios, curtem muito um bar, adoram um torresmo ("chincharrón"), linguiça ("chorizo"), pão de queijo ("pán de bono") e tomar uma "aguardiente", a versão local da cachaça, feita de anis. As mulheres de Medellín me fizeram lembrar muito as mineiras, tanto fisicamente, como pelo jeito de se vestir. O bairro El Poblado, o mais nobre da cidade, é muito parecido com Lourdes, bairro boêmio de BH que tem inúmeros bares e restaurantes badalados.  

- A sensação de segurança é muito boa. O policiamento é ostensivo e também há muitas câmeras de segurança nas ruas. Apenas o centro da cidade requer um pouco mais de cuidado, e deve ser evitado à noite.

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O dia estava ensolarado e com temperatura amena (26 graus). Medellín fica numa altitude mais baixa que Bogotá (1.500m) e por isso faz um pouco mais de calor, chegando a fazer 30 graus de dia. De noite baixa para uns 18 graus, e não há necessidade de ar condicionado para dormir. É assim o ano todo devido à proximidade com a linha do Equador. Medellín é conhecida como a "cidade da eterna primavera". 

Café da manhã no hostel:


Huevos revueltos (ovos mexidos):


Na recepção do hostel vi um papel sobre o "Pablo Escobar Tour", uma visita guiada de 2h por lugares históricos, como a casa onde "El Patrón" morava e o lugar onde ele estava escondido e foi morto pela polícia. Custava 40 dólares. Achei um roubo. É claro que eu fiz esse passeio por conta própria pagando apenas a passagem do metrô ! :-) Procurei os endereços na internet e fui conferir tudo de perto.

A rua do hostel, bastante arborizada:



Propaganda do governo na parede:  "Nuestra nueva Medellín transforma espacios para la vida".


Plataforma da estação Poblado do metrô. Por ser sábado, estava bem mais vazio que ontem.


Para evitar a fila da bilheteria, comprei um cartão pré-pago do metrô com 6 passagens, cada uma por 2 mil pesos (R$2,70)



Desembarquei na estação seguinte, Aguacatala, no bairro vizinho (Santa Maria de Los Angeles). É um dos bairros mais nobres da cidade. Neste bairro Pablo Escobar morava com sua família.



Santa Maria de Los Angeles é um bairro cheio de ladeiras, com casas e edificios de luxo, e ruas muito limpas e arborizadas.


Este é o Edifício Monaco, na Carrera 44 Nro 15 Sur-31, onde Pablo Escobar morou com sua família. O prédio inteiro era dele. Tinha 8 andares e um estacionamento onde Pablo guardava sua coleção de 40 carros de luxo. Em 1988, integrantes do Cartel de Cali estacionaram um carro-bomba com 80 kg de dinamite em frente ao prédio. A explosão destruiu o edifício e boa parte dos imóveis vizinhos. Pablo não estava no momento, mas sua mulher e seus dois filhos se salvaram milagrosamente. O edifício posteriormente foi restaurado para ser utilizado por uma repartição pública do governo local, mas o local foi abandonado em 2010 e permanece assim até hoje.


Quadra de futebol e basquete dentro da casa de Pablo:


A rua onde "El Patrón" morava:


De volta para o metrô Aguacatala:


Desci na estação Exposiciones, e fui andando até o Cerro Nutibarra, um pequeno morro no meio da cidade onde fica o Pueblito Paisa, uma das principais atrações de Medellín:



Subindo o morro:





Vista da cidade no alto do morro:


Bandeira da Colômbia:


O Pueblito Paisa é a réplica de um típico vilarejo do interior da Colômbia. Parece uma cidade cenográfica. 






Barbearia:


Sala de aula:

Um reporter de um canal de TV colombiano gravando uma chamada com o Pueblito Paisa ao fundo:


Na local havia uma feira de artesanato:



Barraca vendendo "arepas de queso":


Propaganda do governo de Antioquia, cuja capital é Medellín:


Barraca vendendo sucos naturais:



Comprei um suco de "guanábana" (graviola). Custou 3 mil pesos (R$4). Uma coisa curiosa sobre sucos na Colômbia é que sempre perguntam: "en agua o en leche ?". Os colombianos tem o costume de tomar suco de frutas com leite.


Praça de alimentação onde restaurantes serviam pratos típicos:



Peguei um taxi para descer o morro e ir para a Plaza de Las Esculturas, no centro da cidade (7 mil pesos=R$9,50).  Quando o taxi parou e eu abri a carteira para pagar a corrida ainda dentro do carro, duas mulheres que estavam na calçada gritaram pela janela, que estava aberta: "cuidadoooo, que te están marcando !" Olhei pro outro lado e tinha um "de menor" no canteiro central da rua pronto para dar o bote na minha carteira. Como os taxis em Medellín andam com os vidros traseiros abertos (não tem ar condicionado), este tipo de roubo com os taxis parados deve ser comum. Pedi para o motorista me deixar do outro lado da praça, e desci com o radar ligado na potência máxima.

Esta praça fica bem no centro da cidade, e já havia lido que esta região exige atenção redobrada, porque é meio perigosa. O local estava repleto de policiais, o que dava um certo alivio aos grupos de turistas que tiravam fotos por lá, mas não me atrevi a sair da praça e explorar as ruas próximas.

Como o nome diz, a praça tem diversas esculturas do Fernando Botero:











Palacio de Cultura Rafael Uribe (estava fechado):


Vendedor de chapéus:


Eu estava tirando fotos das esculturas quando vi alguns policiais correndo para prender um "de menor", que devia ter acabado de aprontar alguma coisa:


Este é o Museo de Antioquia, que tem uma grande coleção de pinturas e esculturas de Botero:


Entrada 10 mil pesos (R$13,50):






"La familia colombiana":


"Pablo Escobar muerto":


"Carrobomba":

Escultura de Botero:



Vista da praça no alto do museu:


Saí do museu e fui pegar o metrô na estação Parque Berrío, ali mesmo na praça. 

No caminho vi muitos ambulantes oferecendo ligações de celular por 100 pesos/minuto (R$0,14). É como se fosse um orelhão, mas de celular. Interessante, nunca tinha visto isso em lugar nenhum. 




O centro de Medellín me lembra muito o centro de Niterói. É muito feio, sujo, perigoso, bagunçado, e cheio de camelôs.




No metrô, fiz uma baldeação na estação San Antonio para a linha B. O esquisito dessa estação é o embarque, que é feito em plataformas sobre os trilhos:


Desci na estação Cisneros:



Propaganda da prefeitura:


A Plaza Cisneros tem um bosque artificial com 300 postes que ficam iluminados à noite:




No meio dos postes, banquinhos e cadeiras para quem quiser dar uma relaxada:


Do outro lado da rua, edifícios da prefeitura de Medellín e do governo de Antioquia:





A Plaza Mayor, que fica próxima a Plaza Cisneros, é um oásis no meio da bagunça e da feiura do centro de Medellín. É um lugar muito agradável, super limpo, bem cuidado, e seguro, com um moooonte de policiais. Gostei muito de lá.  A praça tem bares, restaurantes, dois centros de convenções, e um teatro.


Relógios de flores:

"La educación es el camino de las oportunidades":


"Puro orgullo colombiano":


"Despierta, aún estamos a tiempo":


Centro de convenções:




Além da presença ostensiva de policiais, há muitas câmeras na praça:



No meio da praça, um bosque de bambus:


No meio da praça fica o Parque de los Pies Descalzos, uma área com areia onde as pessoas tiram os sapatos para caminhar descalças e relaxar. Esta área tem um tratamento acústico que impede que chegue o barulho do trânsito das ruas próximas. Nem parece que a poucos passos dali está o caótico centro da cidade.

"Descalza tus pies y siente la energía del planeta":





A criançada fazendo farra no chafariz:


Pássaro de flores:


Estes pavilhões tem diversos bares e restaurantes:





Poltronas públicas:


Sentei para comer no Fellini, uma hamburgueria gourmet.




Hamburguesa de queso azul (22.800 pesos = R$ 31):


Voltei para o metrô e desci na estação Acevedo, que fica no outro lado da cidade, a zona norte, muito pobre e cheia de favelas que no passado eram bem perigosas. As montanhas que cercam a cidade são bem altas (tem entre 1000 e 1500m de altura), e as favelas são enooooooormes. Fazem a Rocinha e o Complexo do Alemão parecerem pequenos.


Nesta estação Acevedo peguei o teleférico para subir até o alto da montanha. Há 5 linhas de teleférico em Medellín. Esta é a linha K (Acevedo-Santo Domingo Savio). Não se paga mais nada para andar neste teleférico. Funciona como se fosse uma baldeação normal para outra linha de metrô.


Havia uma fila enorme para embarcar, porque esta linha de teleférico é usada tanto pelos moradores da favela quando pelos turistas e moradores de outras partes da cidade que visitam o Parque Avri.


O embarque no teleférico é controlado por policiais:


Vista das favelas:

O teleférico passa por duas estações até chegar a estação final, Santo Domingo Savio, que fica mais ou menos na metade da montanha.




Mesmo sendo uma parte bem alta da favela, é urbanizada. Há ruas por onde passam micro-ônibus, carros, taxis e caminhões de lixo. O transito estava totalmente engarrafado.




Algo que chama muito a atenção nas favelas daqui (e na cidade como um todo) é que quase não se vê negros. A grande maioria é de brancos e mestiços (indio-branco).


Embarcando na linha L do Metrocable (Santo Domingo Savio-Avri). Para andar nesta linha é necessário pagar uma passagem adicional que custa 9200 pesos (R$12,40) ida e volta. 



Continuando a viagem montanha acima, é interessante perceber que as casas vão ficando aos poucos mais escassas e afastadas umas das outras, e são muito mais simples que nas partes mais baixas.


Durante o trajeto no teleférico, um morador local puxou conversa com outro:

- Você mora por aqui ?
- Sim.
- Sou de Itagüi. [uma cidade vizinha]. Isso aqui há alguns anos era uma loucura. Uma terra sem lei. Quase não vinha pra cá. Perdi um amigo, foi assassinado aqui por estas bandas.
- É, isso aqui está mais calmo mesmo.

Prestando mais atenção nas conversas, percebi que o espanhol de Medellín tem um sotaque bem diferente do espanhol de Bogotá, que é mais cantado e achei mais fácil de entender. Em Medellín usa-se o "vos" no lugar do "tu", como fazem os argentinos e uruguaios.

Nesta parte, já bem alta, já quase não tem mais casas:



Um tempo depois, um pouco mais acima, era só mata fechada.


O trajeto dos dois teleféricos combinados é bem longo. Tem quase 7 Km de extensão montanha acima. 

O Parque Avri fica a 2.500m de altitude (cerca de 1000m mais alto que a cidade de Medellín), e por isso, a temperatura é bem mais baixa. Na cidade estava quente (cerca de 30 graus), mas lá em cima estava uns 20 graus. Batia uma brisa gelada.



O Parque Avrí é a "Floresta da Tijuca" de Medellín. É uma área enorme de montanha e floresta com muitas trilhas e pistas para mountain bike.


Mapa do parque:

Uma feira perto do teleférico:


Estrada:

Trilhas:


Uma "chiva" (ônibus velho colorido, típico da Colômbia, usado para passeios turísticos):


Fiquei pouco tempo no parque. Queria aproveitar o resto da tarde para ver a famosa casa onde se escondia Pablo Escobar.

Descendo no teleférico de volta para a cidade:


De volta à estação Acevedo do metrô:


Todas as estações de metrô de Medellín tem pelo menos um policial de olho no movimento das plataformas de embarque.


Fui até a estação Floresta, que fica em Los Olivos, bairro de classe média onde Pablo Escobar passou seus últimos dias escondido da polícia após fugir da prisão em 1992.



Após Pablo falar com o filho pelo telefone celular (um modelo primitivo do início dos anos 90), a polícia conseguiu rastrear o sinal e encontrou o lugar onde ele estava escondido, esta casa na foto abaixo. Para minha frustração, rodei pelo bairro diversas vezes e não consegui encontrar o endereço da casa que eu tinha anotado (Carrera 79 Nro 45D-94). A foto abaixo eu baixei da internet:


Pablo foi morto no telhado da casa com 3 tiros. Há quem diga que ele suicidou-se pouco antes da polícia encontrá-lo. 


Como já estava escurecendo, desisti de procurar a casa e voltei para o hostel.

No quarto do hostel conheci um grupo de americanos e canadeneses. Eram gente boa, mas eu ficava frustrado quando eles começavam a conversar entre si, usando e abusando de gírias, e eu não entendia quase nada.

Tomei um banho e saí pra jantar. Comi no mesmo italiano de ontem, o Sapore di Pasta. O fetuccini com molho funghi e uma cerveja saiu por 15 mil pesos (R$20).


Uma grande desvantagem de ficar hospedado em quartos coletivos nos hostels é que não dá para deitar e dormir um pouco antes de sair à noite, porque até 23h sempre tem movimento de gente entrando e saindo do quarto, luz acesa e barulho. Depois de um dia inteiro andando, acho bem importante uma descansada para aproveitar melhor a noite. Como não consegui, dei uma de "highlander" e encarei a noitada morto de cansado. Ficar dormindo sábado a noite seria um pecado mortal.

As ruas nas redondezas do Parque Lleiras estavam bombando de gente. As ruas próximas ficam fechadas para carros à noite para facilitar a circulação das pessoas. Os bares estavam todos cheios. Fiz como os locais: entrei num pequeno mercado em frente à praça, comprei uma cerveja Club Colômbia por apenas 2 mil pesos (R$2,70) e fiquei na praça observando o movimento. A fauna feminina circulando por ali era sensacional. Reparei que nos bares e na praça muitos colombianos tomavam "aguardiente" (a cachaça local, feita de anis).

Tomei mais umas cervejas e fiquei por lá até umas 2h da manhã.

2 comentários:

  1. Impressionante o esforço da cidade em construir isto tudo. Eu vi o Gato de Botero em Barcelona mas não sabia que ele está vivo e é de Medellín. Na série colombiana fala-se muito nele, mas não mostra nada.

    Apesar dos dados positivos o seu relato deixa claro que a cidade é perigosa. A julgar pelo "aluguel" de celular, o brasileiro está melhor. Até aluno meu que nunca tem lápis, caneta, tênis, etc, tem celular (e até melhor que o meu, rs...)

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    1. O conceito de perigoso é muito relativo. Medellín é perigosa em relação a uma cidade européia, mas é segura em relação à maioria das capitais brasileiras. Os números comprovam isso. http://www.forbes.com.mx/las-50-ciudades-mas-violentas-del-mundo/

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