[Mochilão 13] Dia 8: Nova Delhi

Meu último dia na Índia. :-(

O hotel não tinha café da manhã. Senti muito a falta de uma padaria ou de uma lanchonete onde pudesse comer alguma coisa leve de manhã. Nas ruas próximas ao hotel só encontrei barracas vendendo frituras esquisitas, restaurantes servindo pratos apimentados, e pequenos mercados vendendo biscoitos e outras porcarias industrializadas. Foram os biscoitos que me salvaram mais uma vez. 

Ruas de Paharganj perto do hotel:





Uma pequena borracharia:



Outdoors religiosos com coisas incompreensíveis em hindi:



Propaganda política:


Como o consumo de cerveja aqui na Índia é mínimo, em vez de catar latinhas de alumínio, os pobres catam garrafas de plástico para revender a usinas de reciclagem.


Homem preparando massa de pão:


Restaurantes com cozinhas na porta:



Ao pedir informação para um indiano na rua que caminhava na calçada no mesmo sentido que eu, ganhei o primeiro "sombra" do dia. Ele começou a fazer um monte de perguntas (as mesmas de sempre), e me ofereceu para entrar numa loja. Foi dificil conseguir me livrar dele.

Um pequeno templo hindu na rua:


Enquanto caminhava por uma calçada, vi umas meninas que não deviam ter mais que 5 anos pedindo esmola para motoristas parados no trânsito. Uma delas, muito suja, vestindo um vestido encardido, veio com os olhos arregalados correndo na minha direção, como alguém que tinha acabado de encontrar um pote de ouro. Fez uma "estrela" (malabarismo), estendeu a mão, e pediu em inglês: "10 rupees, sir, please...pleeeease". Confesso que fiquei com pena daquela pequena criatura maltrapilha, mas preferi não dar esmola nenhuma. Além de não resolver o problema da pobreza, a esmola apenas ajuda a perpetuar a condição de mendicância dessas crianças, que são exploradas por adultos da mesma forma que acontece aqui no Brasil.

Fui caminhando para a Connaught Place, um lugar muito diferente de tudo que já tinha visto na Índia. É tudo muito limpo, as construções são mais novas e bem cuidadas, e até o trânsito parece mais civilizado. Parece uma Índia feita "para inglês ver". Agora entendo por que tantos indianos me aconselharam a ir pra lá em vez de me aventurar em Old Delhi. Eles talvez tenham orgulho de Connaught Place e vergonha de Old Delhi.



Esse foi um dos poucos sinais de trânsito que vi na Índia. Tinha até a faixa de pedestres, e os carros, para minha surpresa, paravam no sinal vermelho. Acho que foi o único lugar onde atravessei uma rua na Índia sem achar que eu estava praticando um esporte radical, hehehe.



Assim que pisei na Connaught Place, já veio um tout fazendo a sabatina de sempre e quis me oferecer uma corrida de tuc tuc. Uma quadra depois, apareceu outro dizendo "I'm not guide" (vários dizem isso para não "tomarem toco" de cara) e me aconselhando a visitar o escritório oficial de turismo que ficava próximo dali. Andou junto comigo por algumas quadras.  Esse eu fiquei na dúvida se era tout ou se queria apenas ajudar sem interesses financeiros por trás. Agradeci e segui em frente até ser abordado por mais uns 10 outros, tipo um por quarteirão. Fui solicito e educado com os primeiros, mas perdi a paciência e nem dei idéia para os últimos. Não respondia nada. Ficava mudo, fazia sinal de negativo com os dedos e seguia em frente sem dar conversa. Pelo menos me deixavam em paz e não me seguiam. A grande quantidade de turistas estrangeiros circulando neste lugar atrai muitos touts.

Uma rua com muitos bancos. Estranhamente todos eles estavam fechados (11h de sexta-feira).


Esta região tem muitas lojas de grife, hotéis, cafés e restaurantes. Por um momento, se não fossem os tuc tucs passando na rua, dava para achar que eu estava na Europa. Entretanto, achei o lugar um tanto quanto artificial e sem alma se comparado com Old Delhi, que é a verdadeira Índia, como definiu o cara do riquixá ontem. É como comparar a Barra da Tijuca com a Lapa. Onde está a verdadeira alma carioca ?




A região de Connaught Place tem uma forma circular. É organizada em blocos ao redor de uma praça chamada Rajiv Chowk.


A praça era toda cercada, e para entra nela era necessário ser revistado por um policial e passar por um detector de metais.


A praça era muito limpa e bem cuidada. Na grama, muitos casais jovens namoravam de forma muito comportada, sem mãos dadas, beijos ou carícias em público, como manda a tradição local.


Placa avisando dos perigos de cuspir em lugares públicos:


Outra coisa esquisita foi uma placa que vi avisando que é proibido tirar foto no parque (!!). Meio que sem querer, ignorei solenemente a proibição, porque só vi a placa quando estava saindo de lá.

Entrei no metrô para ir em direção a longínqua South Delhi, a região mais antiga da cidade, com muitas ruínas medievais. Tentei usar as fichas que tinha comprado ontem, mas não funcionaram. Pelo visto, só funcionam no mesmo dia da compra. Tentei comprar fichas novas no caixa eletrônico, mas não dava troco e era necessário pagar a quantia exata (18 rúpias). Eu não tinha esse valor exato em moedas. Tive que encarar a fila da bilheteria, que estava bem grande. Quando estava quase na minha vez, veio um cara e furou a fila na maior cara de pau. Um outro, ao sair da bilheteria, deu maior trombada em mim e não falou nada (desculpa pra que ?! Num país tão populoso, esbarrar nos outros é normal e corriqueiro...).  Quando eu estava pagando,  veio um outro cara e meteu o dinheiro no buraco do guichê querendo comprar a passagem ao mesmo tempo que eu. Ninguém que estava atrás de mim reclamou. 

Um indiano puxou conversa, perguntando de onde eu era e para onde eu estava indo (para variar). Quando disse que iria para a estação Qutub Minar, ele falou que eu não deveria ir pra lá, porque as ruínas estavam fechadas para limpeza hoje. Lógico que ignorei a informação, e lógico que o cara estava mentindo. Queria entender esse prazer que eles tem em dar informações erradas.

A estação estava cheia, e enquanto o trem não chegava, as pessoas aguardavam na plataforma formando filas em lugares demarcados no chão que correspondiam a posição das portas dos vagões. Tudo muito civilizado e organizado, contrastando com a bagunça generalizada e a falta de regras que reinava na superfície.

Dentro do vagão me chamou a atenção que há assentos "Ladies only". Isso mesmo, assentos somente para mulheres, independente da idade. Quando embarquei, todos os bancos estavam ocupados. Entrou uma mulher também, que reclamou alguma coisa em hindi com os homens que estavam sentados nesse assento feminino. Em vez de um deles levantar e dar o lugar para ela, os dois chegaram pro lado e se espremeram. A mulher sentou no pedacinho de assento que sobrou. A cena dos três espremidos onde caberiam apenas duas pessoas me deu muita vontade de rir, mas para eles isso parecia a coisa mais natural do mundo. Coisas da Índia.

As ruínas de Qutub Minar ficavam a mais ou menos 1 Km da estação de metrô. Entrei num tuc tuc e negociei o preço de 50 rúpias. Pouco depois, o motorista falou para eu descer, assim mesmo, sem dar maiores explicações, e embarcou um grupo de 4 pessoas no meu lugar. Ele ganharia mais dinheiro com o grupo, é claro. Respirei fundo, contei até 10 e negociei as mesmas 50 rúpias com outro motorista. Quando entrei no tuc tuc e ele ligou o motor, ele falou que eram 80 rúpias. Mas que cara de pau a dele !! Desembarquei e fui andando mesmo, roxo de raiva com a falta de respeito desses caras. Não queria mais saber de tuc tuc nenhum pela minha frente.

Penando pra atravessar uma rua perto das ruínas:


As ruínas do Qutub Minar são o que sobrou da antiga cidade fortificada de Mehrauli (século 12), a mais antiga das 7 cidadelas que existiram em Nova Delhi.  Mehrauli foi fundada logo depois da chegada dos islâmicos à Índia. O domínio dos sultãos islâmicos perdurou na região por mais 600 anos até a invasão dos Maratas, que levaram o hinduísmo de volta ao Norte da Índia. Atualmente apenas 13% dos indianos são muçulmanos.

Entrada das ruínas do Qutub Minar. O ingresso custou 250 rúpias (R$11). O local estava aberto, contrariando a informação que havia recebido de um indiano no metrô.



Numa lanchonete comprei um suco de manga de garrafa, daqueles industrializados (40 rúpias = R$1,70).


Plaquinha numa lanchonete na entrada dizendo "você é a chutney da minha samosa". Só quem conhece um pouco da cozinha indiana entendeu essa ! :-)


Relaxa e come uma samosa ! :-)



Mapa do complexo:


Muralhas ao redor da cidadela:


O Qutub Minar, uma enorme minarete de 73m erguida pelo sultão Qutb-ud-din em 1193 para celebrar a supremacia do seu sultanato sobre os hindus que haviam sido expulsos da região.


Ruínas da Quwwat-ul-islam Majid, a primeira mesquita a ser erguida na Índia.










Este pilar de ferro de 7m de altura é um grande mistério para a ciência. Foi erguido originalmente num templo hindu no século 5, sendo reaproveitado posteriormente pelos islâmicos nessa mesquita. Ninguém consegue explicar como ele não enferrujou durante os 1600 anos em que está exposto às interpéries, considerando a tecnologia rudimentar que existia no século 5.



Dei uma passada no banheiro e reparei  uma coisa engraçada, que já tinha visto em outros lugares da Índia: tanto nos banheiros públicos como em banheiros de museus e atrações turísticas, cobra-se preços diferentes de acordo com o que você irá fazer. Se for o "número 1" (mictórios), o ingresso é mais barato que o "número 2" (cabines), ehehehe.

Voltei caminhando para o metrô. Por causa do trânsito engarrafado, as motos ficam trafegando em alta velocidade por cima das calçadas, buzinando para os pedestres sairem da frente. Tenso esse negócio !


A policial indiana fazendo o gesto do "namastê" com as mãos num outdoor:


Embarcando no metrô:


Desci na estação vizinha, Chattarpur, para conhecer o segundo maior templo hindu da Índia, o Chattarpur Mandir.


Trânsito caótico às 14h. Imagina isso na hora do rush !!


Barraquinhas vendendo frituras:


Muitos ônibus levando peregrinos para o templo:


Estes outdoors estavam num prédio em frente ao templo. Seriam dentistas santos ? Monges se protegendo da poluição do ar e do mau cheiro das ruas ? Lei da mordaça, todo mundo proibido de falar ? Mistério...



O templo fica situado numa área enorme cercada por grades. Estava bem vazio na hora que fui. Não vi nenhum turista no local, e eram pouquíssimos os indianos.

Estátua enorme do deus hindu Katyayani na entrada:


Um tridente em frente ao templo: 



O templo de Chattarpur:




O interior do templo estava vazio e não tinha nenhum lugar para as pessoas se sentarem.


Nesta parte mais próxima à estátua de Katyayani é necessário retirar os sapatos para se aproximar.



Atrás do templo, homens faziam comida em panelas enormes embaixo de uma tenda improvisada:


Símbolo do templo: 


Entendeu o aviso, né ??


Torneira d'água mineral "potável" do lado de fora do templo:


Estátua de elefante na frente do templo:


Baba Sant Nagpal ji, responsável pela construção do templo. É venerado como um santo pelos hindus que vão ao local:




Outro templo menor que fica ao lado do templo principal:


Voltando para o metrô, passando por uma rua muito suja, cheia de lixo, moscas e muito mau cheiro. Latas de lixo são verdadeiras raridades na Índia.


Desci na estação Central Secretariat, na região conhecida como Nova Delhi. Explicando melhor: a "velha" Delhi é a região antiga que visitei ontem, onde fica o Lal Qila, próxima ao meu hotel. A "nova" Delhi é a parte mais nova da cidade, construída pelos britânicos quando a capital da então colônia da Índia foi mudada de Calcutá para Delhi em 1911. É uma região com amplas avenidas e muitos edifícios administrativos. Me fez lembrar muito a capital americana, Washington. A limpeza das avenidas, os jardins bem cuidados e o trânsito ordenado (com semáforos e até faixas de pedestre) representam um lado completamente diferente da capital indiana.





O India Gate e a Rajpath são a versão local do Arco do Triunfo e da Champs-Ellysées:


Várias vans de canais de TV indianos estavam com antenas parabólicas posicionadas para gravar reportagens:


Esse guarda ficava nessa "casinha" rosa no meio de um enorme cruzamento organizando o trânsito: 


Um dos muitos edifícios administrativos ministeriais do governo indiano:


Rashtrapati Bhavan, o palácio presidencial. Tinha uma barreira policial na rua. Isso foi o mais próximo que consegui me aproximar do palácio:


National Museum (entrada 600 rúpias = R$26).


Uma coisa esquisita é que as pessoas tem que passar por um detector de metais não só para entrar, mas  também para sair do museu. Será que é para ver se alguém roubou objetos de metal ?

Uma estátua do deus hindu Vishnu. Há milhões de deuses no hinduísmo. É complicado de entender a relação entre eles. Alguns são "avatares" (encarnações terrenas) de outros. Buda, por exemplo, é considerado uma encarnação de Vishnu no hinduísmo.


Um pote da civilização harappeana, uma das mais antigas do mundo, da época dos faraós (2000 A.C.). Ocupava regiões hoje pertencentes a Índia e ao Paquistão.




Ruínas da civilização harappeana no Paquistão:


Pintura de um príncipe do Império Mogol (século 18) cercado de mulheres em seu harém:


Roupas tradicionais usadas pelos mogóis:


Os estados do nordeste da Índia, localizados numa região montanhosa próxima à cordilheira do Himalaia, são habitados por dezenas de tribos. Os nativos desta região tem a pele clara e traços orientais bem diferentes do indiano típico, que tem a pele morena, olhos grandes e cabelos lisos bem pretos. No sul, boa parte da população tem a pele mais escura.



Instrumentos musicais:


Uma carroça gigante de madeira do século 19. Era usada em festivais religiosos hindus no sul da Índia.



Peguei um tuc tuc e pela primeira vez o motorista topou utilizar o taxímetro em vez de combinar um valor fixo antes da corrida. Paguei 82 rúpias (R$3,50) por um percurso de cerca de 7 Km. Bem barato.



O Humayun's Tomb,  mausoléu do imperador mogol Humayun, foi construído no século 16 e é uma das construções mais belas de Nova Delhi, Patrimônio Mundial da UNESCO. A entrada custou 250 rúpias (R$11).




Suas linhas arquitetônicas tiveram forte influência persa, e serviram de inspiração para o Taj Mahal, construído 60 anos depois.



O túmulo do imperador dentro do mausoléu:


Humayun e sua esposa, Haji Begum:


Peguei outro tuc tuc de volta para a Connaught Place. O motorista era ousadia pura. Esse deveria fazer teste para ser piloto de rally ou motorista de ambulância. Em vários momentos eu achei que ele fosse bater nos carros. Tirou vários "finos". Antes dos passageiros embarcarem, ele bem que poderia perguntar '"Com emoção, ou sem emoção ?", como fazem os motoristas de buggy em Natal, hehehe. A corrida saiu por 100 rúpias (R$4,30).

A Connaught Place estava bastante movimentada de noite. Indianos e turistas estrangeiros lotavam os restaurantes e cafés da região.



Uma coisa que chama muito a atenção ao caminhar pelas ruas na Índia é que vê-se muito mais homens que mulheres. No país há cerca de 5% mais homens que mulheres na população, reflexo do aborto seletivo de meninas, que são indesejadas porque os pais tem que pagar dote para elas se casarem no futuro. Em alguns estados indianos, chega-se a matar as meninas após o nascimento. O dote é o pagamento feito ao noivo pela família da noiva para acertar o casamento entre os dois. É uma espécie de recompensa ou indenização paga à família do noivo, que gastou com a educação do filho homem que irá sustentar a esposa, livrando o pai dela desta despesa. Por isso a familia da noiva precisa pagar a festa, lua de mel,  enxoval do noivo e dar um dote em dinheiro.  Os casamentos são arranjados pelas familias dos noivos de acordo com o mapa astral dos dois. A noiva muda para a casa da familia do noivo para servir como "empregada" da sogra. O dote é ilegal na Índia desde 1961, mas continua existindo na prática, principalmente em áreas rurais, onde ainda vive 70% da população. É uma tradição que remonta a antiguidade. Era praticada pelos babilônicos, gregos, romanos e outras civilizações. Só desapareceu no século 19 no ocidente (incluindo o Brasil), mas persiste em sociedades mais conservadoras da Ásia e África.

Jantei no Hotel Saravana Bhavan. Apesar do nome, não se trata de hotel, e sim de um restaurante de comída vegetariana típica de Tamil Nadu, um estado no sul da Índia. Tem dezenas de filiais espalhadas pela  Índia e em diversos países do mundo.



O restaurante era enorme e estava bem cheio. Eu era o único estrangeiro no lugar.


De entrada, vada (bolinhos em forma de "doughnut" fritos) com pasta de cebola:


Milk Shake de chocolate:


Raba masala dosa (uma espécie de crepe com recheio de "vento"). Vieram umas pastas picantes também. O crepe foi servido em cima de uma folha de bananeira. Come-se este crepe com as mãos. Não dão nem faca nem garfo, apenas uma colher para espalhar as pastas.


A conta deu 435 rúpias (R$19). Para os indianos é um valor alto, mas para os nossos padrões isso é muito barato, considerando que a comida era muito boa e o restaurante ficava localizado num bairro nobre. As famílias de indianos que jantavam lá pareciam mesmo pertencer à elite local.

Me chamou a atenção que vi muitos clientes indianos e garçons conversando em inglês. O restaurante era de comida do sul da Índia, onde fala-se a língua tâmil, enquanto que em Nova Delhi fala-se hindi, que é totalmente diferente. Os indianos de estados diferentes precisam então recorrer ao inglês para poder se comunicar.

Peguei outro tuc tuc de volta pro hotel (80 rúpias = R$3,50). Nem rolava de andar de metrô aquela hora. A estação estava com fila pra entrar. Imagina o inferno que devia estar para embarcar.

O motorista me deixou no Main Bazaar, a rua principal de Paharganj. Cadê que eu conseguia encontrar a rua do meu hotel ? Fiquei pra lá e pra cá, meio perdido e sem referências, porque as ruas não tinham nome e eram bem parecidas. As pessoas não sabiam informar onde ficava o meu hotel.  Depois de uns 15 minutos perdido, comecei a ficar preocupado com a hora, porque já estava ficando com o horário meio apertado para chegar ao aeroporto. Estava complicado de andar rápido com as ruas lotadas de gente, tuc tucs, carros, motos, riquixás e camelôs. Depois de mais uns 10 minutos, já ficando meio desesperado, consegui achar o hotel. Entrei voando na recepção, peguei meu mochilão meio afoito, e fui correndo (literalmente) para a estação do Airport Express, ao lado da estação ferroviária New Delhi.



Localizada em meio ao "mafuá" de Old Delhi, esta estação é um oasis. Ao descer a escada rolante e chegar na plataforma vazia, limpa e silenciosa, fiquei com a impressão de ter chegado num outro país, ou talvez num outro século. 

O Airport Express é um trem expresso que liga Old Delhi ao aeroporto internacional em apenas 19 minutos, e custa apenas 100 rúpias = R$4,30. Muito bom !!! Coisa de primeiro mundo ! Contraste total com a precariedade do transporte público em geral na Índia.  


Achei o aeroporto de Nova Delhi muito bom. Tudo moderno, limpo, eficiente e organizado. Quem desembarca aqui pela primeira vez acha que chegou a um país de primeiro mundo.


Para entrar no aeroporto é necessário mostrar a passagem e o passaporte a um policial que fica na porta. Isso evita a entrada de pedintes, muito comuns no aeroporto há alguns anos quando esse controle não existia. 

A comida vegetariana não deu vazão e ainda estava com um pouco de fome. Achei os preços de comidas no aeroporto 3 ou 4 vezes mais altos que o normal. As rúpias que sobraram na minha carteira não davam pra quase nada, e não queria trocar mais dólares só pra fazer um lanche. Felizmente achei um McDonald's com preços "normais". 

Mc Maharajah (hamburguer de frango com molho curry):


Os preços das comidas na Índia sempre tem "pegadinha", porque o valor que aparece nos cardápios não tem os impostos incluidos. O Mc Maharajah aparecia no painel do McDonald's com o valor de 135 rúpias, mas com os diversos impostos somados (18,5%)  foi para 160 rúpias (R$7), o que ainda é bem barato se considerar que um Big Mac no Brasil sai pelo dobro.


Depois de 6 dias fantásticos na Índia, chegou o momento de partir para outro país. O voo da Thai Airways decolou rumo a Phnom Penh (Camboja) à meia-noite.

Em poucas palavras, essa visita a Índia foi uma espécie de "pós-graduação mochileira" para mim. Foram dias incríveis conhecendo este lugar mágico, tão diferente de tudo que já tinha visto. Como aprendi ! É um país, sem dúvida, desafiador, com suas 22 línguas oficiais (entre centenas de outras que também são faladas), uma cultura totalmente diferente da nossa, o assédio implacável dos "touts" (guias e vendedores picaretas), os diversos "scams" (armadilhas para turistas), a comida apimentada e diferente de tudo que já vimos, etc. A  "graduação" que fiz nos mochilões passados em países de nível mais fácil foi fundamental para eu encarar este desafio, senão eu correria o risco de não assimilar bem o choque cultural e ainda ter que passar por muitos perrengues em terras indianas por pura falta de "malícia mochileira". Airton Ortiz, autor do livro "Expresso para a Índia", definiu bem esse desafio: "Se formos conhecer o país baseados nas nossas referências culturais, não vamos entender nada do que se passa por lá e, claro, não vamos gostar. Por isso, é preciso que o viajante tenha a mente e o coração desprovido de qualquer pré-julgamento. A Índia é única, não pode ser comparada a nada que conhecemos. Precisamos começar do zero, aprender tudo novamente. E isso requer uma boa experiência em contatos com culturas muito diferentes das quais estamos acostumados a conviver. (...) O curioso é que antes de realizar esse sonho acabei viajando por outros 50 países, creio que uma espécie de preparação para a grande viagem. A Índia, pelo menos a Índia que eu conheci, é completamente diferente de todas as outras referências culturais que temos. Por isso, uma viagem para lá precisa de alguns pré-requisitos do viajante." (a entrevista completa está em http://www.record.com.br/autor_entrevista.asp?id_autor=2514&id_entrevista=48). Me identifiquei totalmente com as palavras do autor ao ler esta entrevista, e foi aí que descobri que a minha hora de encarar a "pós-graduação" havia chegado. 

Comentários

  1. Não duvido que você tenha gostado, mas há mais perrengues do que prazeres no seu relato.

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  2. Cara, muito legal ler o teu relato! Eu ainda explorei mais cantos na Índia (Varanasi, Khajuraho, etc.), e creia: em Varanasi o assédio é MUITO pior, ahahaha. Galera torra a paciência impiedosamente. Índia é muito contraste mesmo. Gostei do texto que vc transcreveu, falando de começar do zero. Acho que é por aí mesmo -- se formos à Índia esperando uma Europa, estaremos no lugar errado.

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