[Mochilão 13] Dia 5: Jaipur-Agra


As rúpias que eu havia comprado em Abu Dhabi estavam acabando. A primeira coisa que fiz depois de acordar foi procurar uma casa de câmbio para comprar mais rúpias. 

A rua do hotel:



A M.I. Road, principal avenida da cidade. Encontrei uma casa de câmbio aberta no outro lado da rua. Eu precisava atravessá-la, mas não havia semáforo. As pessoas atravessavam se metendo no meio dos carros, bem ao estilo "kamikaze". Os indianos exercitam sua imensa fé até mesmo na hora de atravessar a rua. O trânsito estava pesado e não tinha como atravessar sem ser dessa forma.


Atravessar a primeira pista foi fácil, mas demorei uns 20 minutos para conseguir atravessar a segunda. Até gravei um vídeo mostrando o fluxo pesado de carros, motos e tuc tucs nessa pista. Tomei coragem, respirei fundo, e fui com fé. Os carros iam desviando de mim, e milagrosamente cheguei do outro lado !!


Troquei o dinheiro na casa de câmbio, comprei um suco de manga e uns biscoitos (55 rúpias = R$2,40) num pequeno mercado que encontrei no caminho,  e voltei pro hotel pra tomar meu "café da manhã".


Barraca de frituras na rua:


Vacas numa rua perto do hotel:


Peguei um tuc tuc na rua e negociei o preço de 200 rúpias (R$8,50) pela corrida até o Palácio de Amber, no vilarejo vizinho de Amber. O motorista falava balançando a cabeça para os lados. Os indianos tem essa mania.

Repare que esse tuc tuc nem retrovisor tinha. E mesmo que tivesse, não seria utilizado. Os motoristas indianos se orientam pela buzina. O que vem de trás buzina como quem avisa "cuidado, estou aqui atrás de você !". É muito comum ver carros circulando com o retrovisor dobrado, provando que não são usados pelos motoristas. O resultado disso é que o barulho de buzina na rua é INFERNAL. O mais curioso disso é que não se vê nenhum motorista estressado ou com os ânimos exaltados. Eles parecem abstrair todo aquele caos e são totalmente zen.





Pegamos um trecho de alguns kilômetros de estrada para ir de Jaipur a Amber. O motorista era ousadia pura. O passeio foi, definitivamente, "com emoção". E os carros que nos ultrapassavam eram mais ousados ainda. Vi cada ultrapassagem inacreditável !!


Elefantes no caminho:




Chegando:


Vídeo que gravei de um elefante passando na rua em frente ao palácio:


Entrada:
  

A vista espetacular do palácio no alto da montanha. Ele foi construido em 1592 pelo marajá Man Singh para ser a capital do reino do Rajastão. Em 1727, o marajá Jai Singh transferiu a capital para uma parte mais plana, que foi chamada de Jaipur.


O Jairgarh Fort, vizinho ao palácio:


Vista do Palácio de Amber na entrada:


Ambulante vendendo alguma coisa que só os visitantes indianos tinham coragem de comer:





Este pão chama-se paratha, e é muito comum ver mulheres carregando cestas cheias deste pão para vender nas ruas da Índia. Ficam expostas à poeira e a sujeira da rua, e as pessoas comem com as mãos sem nenhuma higiene.


No caminho de subida, crianças e idosos pediam esmola:




Chegando no imponente palácio:


A grande maioria dos turistas eram indianos. Em todos os lugares que fui em Jaipur, vi poucos turistas estrangeiros. Brasileiros eu vi 3 ontem em Jaipur, e hoje vi mais alguns no Palácio de Amber. O turismo na Índia ainda é pequeno, mas tem muito potencial para crescer.

O Pátio de entrada (Jaleb Chowk). A bilheteria fica neste lugar. O ingresso custou 200 rúpias = R$8,50.


Uma coisa engraçada na Índia é que você não acha em nenhum lugar água com menos de 1L pra vender. Mesmo querendo tomar só um gole, você é obrigado a comprar aquela garrafa grande. Eu sempre bebia metade e jogava fora o restante. Pelo menos era barato (20 rúpias = R$0,90).


Vista do vilarejo de Amber:


Pátio de entrada (Jaleb Chowk):


O vilarejo de Amber é todo cercado por muralhas, que sobem até o topo de montanhas. Achei parecidas com a Grande Muralha da China.


Diwan-i-Am (Salão de Audiências Públicas):




Um indiano sikh com seu turbante típico. O sikhismo é uma religião monoteísta que é uma dissidência do hinduísmo e seus seguidores estão concentrados em sua maioria no estado de Punjab, vizinho ao Rajastão. 


O espetacular Ganesh Pol, portão de entrada do terceiro pátio do palácio:


Pátios internos do palácio:






Zenani Deorhi, o quarto pátio interno onde ficam os apartamentos das mulheres da realeza. Os quartos foram construídos sem ligação entre eles. São todos abertos para o pátio central. Desta forma, o marajá podia fazer suas visitas noturnas à alguma de suas esposas e cocumbinas sem que as outras soubessem.





Sistema de coleta e armazenamento de águas pluviais que eram utilizada consumo no palácio:



Um dos pavilhões com mosaicos no palácio:


A maioria das indianas que vi usam o mesmo penteado (com uma trança). Vi também algumas indianas usando roupas ocidentais, com calça comprida. Não vi nenhuma com roupa mais ousadas, como shorts ou decotes. Mulheres indianas com saris coloridos:


Hammam (Banho Turco):


Meninas indianas com roupas típicas:


Na Índia é comum ver homens andando de mãos dadas ou abraçados, como se vê também nos países árabes. Não se trata de homossexualismo. Na cultura local, significa apenas que são amigos. O que é estranho é que não se vê casais héteros andando de mãos dadas, abraçados, ou manifestando qualquer tipo de afeto em público.


Subindo a montanha em direção a Fortaleza de Jairgarh:




A Fortaleza de Jairgarh, construído no século 18:


Muitos macacos passando na entrada da fortaleza:





Vídeo que gravei dos macacos passando:



O Palácio de Amber visto da fortaleza:


Canhões:


Pátio de entrada:


Cadeiras usadas para transportar pessoas da realeza em cima dos elefantes:


Pátio onde eram feitas apresentações teatrais:


Teatro de marionetes:



Salão de jantar do marajá:


Sala de jantar das mulheres da realeza:


Lago (reservatório d'água do palácio):


Pátio interno:


Na calçada em frente a entrada do Palácio de Amber, mulheres sentadas estavam preparando a massa do paratha (pão) para vender para os turistas.


Peguei um tuc tuc de volta para Jaipur. Passamos por ruas estreitas de Jaipur, me deparei com um elefante disputando espaço com os tuc tucs, motos e carros:


Hora de pegar o trem rumo a Agra. Voltei para o hotel, peguei minha mochila e parti para a estação ferroviária, que ficava a poucas quadras do hotel.

No caminho vi uma cena que simboliza bem os contrastes da Índia. Um prédio bonito e moderno ficava bem ao lado de um terreno cheio de lixo, esgoto a céu aberto e com vacas pastando.



Numa parede a imagem do deus hindu Brahma:


A rua em frente a estação ferroviária era um "mafuá" terrível !! Camelôs vendendo comida disputavam espaço na rua com motos, carros, tuc tucs, ônibus, vacas, e pessoas, já que na calçada não dava pra passar com tantos obstáculos. O ar era difícil de respirar com muita poeira e fumaça de tuc tucs e ônibus velhos queimando óleo, sem falar no mau cheiro por causa do lixo e do esgoto. 


Havia alguns pequenos mercados e restaurantes onde cozinhava-se na calçada, com a comida pegando toda as poeira da rua:





Estacionamento de motos. Você conseguiria encontrar a sua moto no meio de tantas outras ? 


Estacionamento de tuc tucs:


Propaganda:


Painel em frente a estação com o horário dos trens:


Estátua de Gandhi em frente a estação:


Placa com a imagem de Gandhi:


Para entrar na estação, tem que passar a bagagem por um raio-x e todos passam por um detector de metais.

Entrada da estação:


Bebedouro público. Você teria coragem de beber essa água ?


Observando os trens que estavam chegando, você percebe que as diferenças sociais se manifestam também nos tipos de vagão. Os vagões de segunda classe passavam terrívelmente cheios com gente que viaja em pé durante horas e os que viajam sentados não tem nenhum conforto nos bancos de madeira. Nesta classe não há ar condicionado. As janelas tem grades para que as pessoas não embarquem ou desembarquem por elas com o trem em movimento. Há diversos outros tipos de vagão onde a classe média indiana viaja. Os vagões de primeira classe e os "AC Chair Car" são os melhores e mais caros, e neles viajam os estrangeiros e indianos com melhores condições.

Um vagão de segunda classe passando lotado:


Plataforma de embarque:


Lanchonete com diversos tipos de comidas típicas indianas:




Meu vagão (AC Chair Car):


A passagem eu comprei na internet, no site da empresa indiana Clear Trip (http://www.cleartrip.com), pagando com meu cartão de crédito internacional (aceita Visa e Mastercard). É um pouco burocrático, mas é muito mais fácil que comprar diretamente na estação de trem, enfrentando filas (e furões de fila) e com risco de dar alguma coisa errado (nada é simples na Índia). Segui o passo-a-passo descrito no excelente site Seat 61 (http://www.seat61.com/India.htm#.VHo3gNLF-yU) e funcionou direitinho. É possível também comprar a passagem diretamente no site da IRCTC, a empresa indiana de trens (http://www.irctc.co.in), mas é bem mais complicado, e compras de pessoas de fora da Índia só podem ser pagas com cartão Amex (que não tenho). Depois, basta imprimir a passagem e mostrá-la a bordo do vagão quando passar o fiscal.

É muito barato viajar de trem na Índia. Minha passagem custou apenas 425 rúpias (R$18,50), e era a opção mais cara que havia disponível. Nas classes mais simples, onde viaja os indianos menos favorecidos, a passagem chega a custar 4 vezes menos.

O trem chegou pontualmente as 17h. Quando embarquei, meu vagão estava mais ou menos com metade dos assentos ocupados. Eu tinha comprado um assento na janela, mas quando embarquei, vi que na verdade era do meio.

O trajeto da viagem:



Algumas horas depois, a maior parte das pessoas já tinha descido, e o vagão ficou mais vazio:


Engraçado é que muita gente fez cara feia quando contei que viajaria de trem na Índia. Já imaginavam aquelas fotos que costumam circular na internet com gente viajando nos tetos e pendurados nos vagões.

Como meus amigos pensam que é andar de trem na Índia:


Como minha família pensa que é andar de trem na Índia:


Como meus colegas de trabalho pensam que é andar de trem na Índia:


Como realmente é andar de trem na Índia:


No assento da janela, vizinho ao meu, tinha um indiano que ficou horas e horas conversando no celular. De vez em quando ele parava de falar no celular e ficava tentando conversar comigo num inglês rudimentar, difícil de entender. Teve uma hora que eu estava dormindo, e ele me cutucou, me acordando para conversar mais (!!).

No vagão viajavam alguns turistas ocidentais, mas a maioria era de famílias de indianos com melhores condições. Na fileira do meu lado tinha um grupo de senhoras indianas vestidas com saris coloridos e com o "terceiro olho" pintado no meio da testa. Elas não paravam de falar. Fiquei impressionado como tinham assunto para conversar durante 6h sem parar.

Há alguns trens expressos, mas este trem era "parador". Fez várias paradas (umas 6 ou 7), sem falar nas inúmeras vezes que ele parava no meio do caminho para dar passagem aos trens expressos que tinham prioridade. Isso fez com que a viagem atrasasse muito. Foram quase 6h para percorrer apenas 240km. 

Durante a viagem comi uns biscoitos e tomei uma garrafa de suco de manga que havia comprado na estação. Não tinha nenhum serviço de bordo ou algo assim, mas as indianas do meu lado jantaram a bordo. Talvez tenham levado a comida para o trem.

Ao chegar na estação ferroviária de Agra, os passageiros eram cercados por dezenas de motoristas de tuc tuc. O Lonely Planet dizia para ignorá-los e ir direto para o guichê de tuc tucs pré-pagos do outro lado da rua, mas não o encontrei. Fechei com um motorista a corrida para o hotel por 150 rúpias (R$6,50). Estava meio frio em Agra (15 graus) e pela primeira vez na viagem coloquei meu casaco.

O hotel (Taj Plaza) fica a apenas 600m do Taj Mahal. A diária no quarto duplo custou 700 rúpias (R$30,50). Na Índia é como no Brasil: paga-se a conta somente no checkout.

O quarto era bom se comparado ao de Jaipur:



Acho que os indianos gostam de brincar de adivinhação, pelo menos na hora de acender a luz. Tanto aqui em Agra como no hotel em Jaipur, o quarto tinha um mooonte de interruptores de luz, mas só um deles servia realmente para acender a luz do quarto. Os demais não sei para que colocaram.


O banheiro parece seguir o padrão indiano: balde, caneca, chuveiro, e sem box.


A roupa de cama parecia não ter sido trocada há um tempo. Tinha várias manchas estranhas. Forrei a fronha com meu casaco. E não tinha lençol. Você tem que se cobrir direto com o cobertor, que duvido que lavem também.



Bateu uma fome sinistra. Eu havia passado o dia inteiro somente a base de biscoitos e sucos, por medo de comer algo vendido na rua e depois passar mal viajando no trem (imagina o perrengue). Como já era quase meia-noite, eu achava quase impossível achar algum restaurante ou lanchonete abertos aquela hora. Mas como a esperança é a última que morre, perguntei na recepção se eles conheciam algum lugar na cidade onde eu poderia comer. E, para minha surpresa, o restaurante do hotel ainda estava aberto ! Muita sorte !!

Fui atendido por dois garçons adolescentes que eram muito gente boa. Fizeram a maior festa quando disse que era brasileiro. Um deles disse que era colecionador de notas de vários países, e perguntou o nome da moeda do Brasil. Eu dei uma nota de 2 reais para a coleção dele, e ele só faltou beijar os meus pés. Engraçado que ele agradeceu igual japonês, curvando-se para baixo.

Pedi um lassi (bebida indiana a base de iogurte) com manga:


Paratha (pão indiano):


Chicken Masala (frango com molho curry):


A conta deu 380 rúpias (R$16,50), o que saiu baratíssimo se considerar que isso me salvou de passar uma noite inteira com fome. 

Voltei pro quarto, tomei um banho (gelado, não tinha água quente) e fui pro berço.

Tinha uma mesquita em frente ao hotel (Hajrat Masjid) e a noite toda tinha um canto islâmico vindo dela. Sorte que tinha levado na viagem meu protetor auricular, senão acho que não conseguiria dormir com aquele barulho. 

Um comentário:

  1. Alexandre, você é um herói. Eu não sobreviveria nesta pobreza por muito tempo. Já fiquei deprimido ao ver mendigos de classe média em Madri, não suportaria a Índia.

    A elite política hindu deve ser mais vagabunda do que a brasileira. Nem se dão ao trabalho de organizar o trânsito.

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