[Mochilão 13] Dia 3: Jaipur


Alguns dados sobre Jaipur: a cidade tem 3 milhões de habitantes, é a capital do estado do Rajastão (fonteira com o Paquistão), que é considerado o mais bonito do país, muito procurado por turistas. É a terra dos palácios, elefantes e marajás. Dizem que é "onde a Índia é mais Índia". 

Localização do Rajastão no mapa da Índia:


A novela Caminho das Índias, da Rede Globo, teve cenas gravadas em 2009 aqui em Jaipur:




Acordei tarde, 11h da manhã. Foi um sono merecido depois de tantas horas viajando. Estava sonhando com pessoas falando num idioma incompreensível, e de repente acordei com os funcionários do hotel conversando em hindi no corredor.

Falei com o recepcionista que tinha me recebido de madrugada. Na verdade ele é o dono do hotel. Ele mora com a família no próprio local, chamado de "guest house". Troquei o quarto por um com cama de casal e banheiro, bem melhor que o outro onde dormi. Diária muito barata (500 rúpias = R$22). O primeiro quarto saiu por apenas 300 rúpias (R$13).




Detalhe da pintura na parede:


Privada oriental. As pessoas aqui fazem o "número 2" de cócoras, igual cachorro...hehe. O banheiro tem balde e caneca como o de ontem, mas pelo menos o uso é opcional, porque tem chuveiro.


Comi uns biscoitos que tinha trazido de casa pra enganar a fome enquanto não achava algum lugar pra comer algo.

Corredor:


Terraço onde tem um bar:


Vista da rua:



Imagens de deuses hindus dentro do hotel:




Recepção:


Frente do hotel:



Rua do hotel:



Ao sair do hotel, fui imediatamente abordado por um motorista de tuc tuc (autoriquixá) querendo saber aonde eu estava indo, e ficou dizendo que me levaria aonde eu quisesse, que poderia fazer um city tour comigo, etc. Eu nunca pego tuc tuc na frente dos hotéis porque eles costumam ser mais caros que aqueles que passam aleatoriamente nas ruas. Me livrei dele e fui andando sem rumo pelas redondezas.

Logo de cara foi um choque caminhar pelas ruas próximas ao hotel. Deu para ver como a Índia é pobre e subdesenvolvida. As ruas são muito sujas, com valas onde passa esgoto a céu aberto, e as construções têm um aspecto favelizado. Os indianos na rua me olhavam como se eu fosse o ET de Varginha, ehehhehe. E vi umas coisas muito diferentes e engraçadas: barbeiro na calçada, vacas no meio do trânsito, grupos de homens jogando cartas na calçada (no chão mesmo), pessoas com umas roupas engraçadas, comidas estranhas sendo feitas em barracas nas calçadas, e muito mais. Isso tudo foi nos primeiros 5 minutos de caminhada, tempo suficiente para me deixar totalmente desnorteado com tanta coisa estranha !!

Estava sol e uma temperatura bem agradável, 25 graus. No verão a sensação térmica chega a 50 graus...imagina isso !! A alta temporada aqui é entre novembro e março, época em que chove muito pouco e a temperatura é mais agradável.

Parei num bar pra comprar uma água de 1L (20 rúpias = R$0,90). Repara a sujeira em frente ao bar:


Já passava de 13h e bateu uma fome. Tinha muita gente comendo na rua, que tinha umas barracas vendendo umas coisas fritas estranhas. Neeem pensar em comer nada disso. Passei longe.


Andei até uma rua mais movimentada e fiquei impressionado com a bagunça no trânsito. Uma selvageria terrível. Tem muito mais motos e tuc tucs que carros, e eles fazem umas barbeiragens inacreditáveis. Sem falar que fica todo mundo buzinando o tempo todo. Achei engraçada essa placa de "Não Buzine", que é solemente ignorada pelos motoristas:


Parei um tuc tuc e negociei o preço de 120 rúpias (R$5) para me levar até o New Gate, um dos portões da Cidade Antiga:




O motorista dirigia feito um louco, tirando fino de várias motos, pedestres que caminhavam no meio da rua (e outros que atravessavam se metendo no meio dos carros), bicicletas, ônibus e riquixás. Brinquedo divertido esse, ehehehhe !!!



Uma moto com 4 pessoas !!


Depois de uns 20 minutos de fortes emoções no tuc tuc, cheguei ao New Gate. A Cidade Antiga de Jaipur (também chamada de Pink City) era toda cercada por muralhas na Idade Média. Parte delas ainda existe atualmente, e os portões foram preservados. .



A Pink City tem as construções todas pintadas de rosa, que para os indianos é a cor da hospitalidade:


Um riquixá:


Toda hora eu passava por um templo hindu. Tinha uns grandes, e uns bem pequenos nas copas das árvores, como esse. Respirava-se muita religiosidade nas ruas.



As ruas na Pink City era MUITO sujas, e o cheiro era uma mistura de incenso, lixo, esgoto, óleo queimado dos tuc tucs e frituras de todos os tipos que eram vendidas nas calçadas:


Mulheres com saris coloridos:


Os carros, motos e tucs tinham que ficar desviando de vacas, que ficavam às vezes no meio da rua bloqueando o trânsito. Como são consideradas sagradas na Índia, ninguém mexe com elas, e nenhum motorista parece se importar em ser atrapalhado no trânsito por elas.


Outra coisa que chama a atenção é que as calçadas são muito estreitas e sempre tem um monte de vendedores de tudo o que se possa imaginar, então a maioria das pessoas anda na rua mesmo, com os carros, motos e tuc tucs passando muito perto delas. E as ruas são sempre cheeeeias de gente. São 1,2 bilhão de indianos para um território que equivale a 1/3 do Brasil. É gente que não acaba mais.

Vendedoras de panelas e talheres na rua principal da Pink City:


A rua principal da Pink City, que concentra o comércio. Vende-se de TUDO: especiarias, roupas, tapetes, comidas, panelas, ferragens, e muito mais. Além das lojas, tem camelôs nas calçadas e também na rua.


Comidas que não faço ideia do que sejam:







Passando por um portão em meio ao caos urbano, surge um oásis, o Hawa Mahal (Palácio dos Ventos), construído em 1799 pelo marajá Sawai Pratap Singh para que as mulheres da realeza pudessem observar o dia-a-dia da cidade sem que ninguém de fora conseguisse vê-las.

Entrada:


O ingresso custa 50 rúpias (R$2,20) para estrangeiros e apenas 10 rúpias (R$0,50) para indianos. Maior discriminação com a gente, heim !!


Interior do palácio:












Essas indianas estavam tirando fotos em comemoração ao Dia Internacional da Mulher:



Vista do topo do palácio:




Nesta parte ficavam as mulheres, e elas podiam observar a rua através de pequenas janelas na fachada:


O outro lado da fachada:


Vista da rua: 


Video que gravei com a vista da rua e o barulho das buzinas:



Saí de lá e voltei para o caos urbano.

Gandhi e outros célebres indianos:



Loja de turbantes usados em casamentos:


Camelô se protegendo do sol:


Banheiro público. O que mais se vê são homens "tirando uma água do joelho" em qualquer canto por aqui. Imagina o cheiro que fica nas ruas...


Estacionamento de riquixás:


O Jantar Mantar (que significa "instrumento de cálculo") é um observatório astronômico construído no século 18 pelo marajá Jai Singh II, o fundador de Jaipur. Ele era um apaixonado por astronomia.

Entrada:


O local tem diversos instrumentos de medição de astros. Muito interessante.



Astrolábio:


Relógio solar com precisão de 20 segundos:





Parece uma banheira, mas é um instrumento que calcula as coordenadas de um astro:


Cada signo é representado por um instrumento que mapeia as coordenadas da constelação correspondente:


Instrumento que mapeia a constelaçao de Áries, meu signo:



Típica família indiana:


Na saída, fui abordado por um motorista de tuc tuc que me propôs conhecer o Jal Mahal (palácio), um lugar onde cuidam de elefantes e outros lugares que não tinha entendido o que era. Tudo por 110 rúpias (R$5). Normalmente eu ignoro esses motoristas que ficam perseguindo os turistas, mas achei que estava barato e resolvi dar uma chance.

Um video que gravei no tuc tuc:



Paramos primeiro no Jai Mahal (Palácio das Águas), localizado no meio do lago Man Sagar. 


O lugar estava lotado de indianos por ser um domingo. Estava muito sujo e cheio de vendedores ambulantes.


O tuc tuc que escolhi para fazer o passeio:


Na segunda parada, o motorista entrou numa zona residencial próxima ao lago. Era um bairro "normal" em Jaipur, mas para nossos padrões seria uma favela, incluindo todos os atributos esperados: muito lixo, casas precárias, esgoto a céu aberto, gente miserável, crianças maltrapilhas brincando nas ruas em meio a sujeira. Só faltou mesmo o tráfico de drogas, as biroscas e os bailes funk.

Paramos num "criadouro" de elefantes, que são utilizados para transporte na Índia. Uma grande fonte de renda dos criadores de elefantes é oferecer passeios para turistas. Diz-se que os elefantes sofrem maus tratos na mão destes criadores.



O motorista depois me levou para uma tecelagem artesanal, mas eu preferi não entrar. Além de não me interessar por isso, eles iam com certeza ficar empurrando coisas para eu comprar. Depois ele começou a me perguntar quanto custa um terno no meu país, e disse que é muito barato na India quando comprado direto dos "tailors" (alfaiates). Imagina eu carregando um terno no mochilão !! Já cortei logo o papo dele e falei pra me deixar de volta na Pink City. Quando já estávamos indo embora, um dos operários da tecelagem, ao ver que eu não quis nem entrar para ver o trabalho deles, veio com uma cara feia no tuc tuc e disse:

- Não somos criminosos. Você pode entrar e ver nosso trabalho. Se você não quiser comprar nada, não compra. 

Velha tática de vendedor querendo sensibilizar o cliente. Falei pro motorista pra gente ir embora logo. Ele me deixou de volta na Pink City meio desapontado, porque deixou de ganhar a comissão sobre vendas que teria se eu comprasse alguma coisa. Escolheu o cara errado, hehe.


Um dos portões da Cidade Antiga:


Os ônibus em Jaipur são terríveis, caindo aos pedaços:


Vacas atrapalhando o trânsito:



Um macaco feliz que ganhou uma banana de um vendedor. Isso foi numa das principais avenidas da cidade.


Trânsito selvagem, com todo mundo buzinando e fazendo manobras radicais:


Vendedores de artesanato:


Sapateiro:


Vendedor de alguma coisa frita. Praticamente tudo que se vende na rua é frito, pelo que reparei.


Vendedor de colares de flores, usados em templos hindus:


Jama Masjid, a principal mesquita da cidade. 80% da população indiana é hindu. Os islâmicos são minoria, mas andando na rua vê-se mulheres usando burca ou véu, e alguns homens também com roupa tradicional e barba grande.



Jantei no restaurante Natraj, na MI Road, a principal avenida da cidade. É um restaurante vegetariano. Estava quase vazio. Só um par de mesas ocupadas por ocidentais. Não gosto muito de comer em lugar "pra gringo", porque quase sempre são muito mais caros do que deveriam ser. Há uma palavra em inglês perfeita para descrevê-los: "overpriced". Prefiro ir em lugares onde os próprios habitantes locais vão. O problema é que na Índia são muito poucos os que podem jantar num restaurante decente como esse, então quase não se nota a presença dos indianos nestes locais.



Samosa de entrada (50 rúpias = R$2,20). Parece um pastel triangular, com recheio de massa de ervilha, batatas e especiarias:



Dosa paper masala, um crepe enorme com recheio de batata e especiarias. Muito bom !! Bem picante. Foi uma recomendação do guia Lonely Planet. 170 rúpias (R$7,40)



Molho de gengibre, e os outros dois eu não identifiquei de que eram:


Depois que pedi a conta, chegou essa tigela com água e limão. Achei que fosse algum chá ou algo assim. Antes de eu experimentar, o garçom, provavelmente já acostumado com as gafes dos turistas, avisou que não era para beber, e sim para lavar as mãos, ehehhehehe.


A conta deu 330 rúpias com impostos e taxa de serviço, o que equivale a R$14. Muito barato !!

Uma nota de 500 rúpias. Todas as notas de rúpias tem a figura do Gandhi. Isso mostra o quanto ele é admirado pelos indianos.


Junto com a conta chegaram esses potes com sementes de anis para mascar junto com açúcar em cubinhos. É para aliviar a ardência da pimenta na boca.


Resolvi voltar andando pro hotel. Estava mais ou menos perto, uns 20 minutos de caminhada. Algumas ruas eram bem complicadas de atravessar, porque não tinham semáforo !!! Os indianos iam se metendo na rua pelo meio dos carros, que ficavam desviando deles. Depois de uns 10 minutos esperando o trânsito dar uma aliviada, mas não parava de passar carro e moto. Esperei chegar um pedestre indiano, respirei fundo e fui no embalo junto com ele. Os carros ficavam desviando da gente. Sensação estranha, meio kamikaze. E deu certo...com a proteção dos deuses hindus, chegamos inteiros do outro lado da rua.

O principal cinema da cidade estava passando um filme indiano. A Índia é a maior produtora mundial de filmes, que são feitos sob medida para a cultura local. 


No caminho vi algumas lojas de marca, onde a maioria da população não pode nem pisar. Há cadeias de fast food ocidentais também, como McDonald's (sem carne bovina), KFC e Subway.


Um templo hindu:


Sujeira na rua:


O dia inteiro eu fui abordado por motoristas de tuc tuc e riquixás. Tem que ter uma paciência infinita e abstrair isso, senão você enlouquece. A tática é sempre a mesma. Começam perguntando onde estou indo e depois de onde eu sou. Aí ficam tentando te convencer a ir com eles, falando que é "very cheap" ou que é "dangerous" turista ficar andando sozinho na rua (mentira, a Índia é MUITO segura).

Loja da Audi, coisa para muito poucos indianos. Você até vê alguns carros mais novos na rua, mas a grande maioria das pessoas anda de tuc tuc, moto ou de ônibus. Há também uns tuc tucs maiores que são quase vans, e elas andam apinhadas de gente, um negócio terrível.


Uma torre moderna:


Voltei para o hotel. Enquanto estava tomando banho, dava para escutar a discussão entre o casal de alemães vizinhos de quarto. É que os banheiros dos quartos vizinhos tem essa parte vazada na parede. Não sei se fizeram isso para melhorar a ventilação, mas na prática você escuta tudo que está acontecendo no banheiro vizinho: revoluções intestinais, cânticos de chuveiro, e outra coisas não exatamente agradáveis de se ouvir. Com uma população tão grande num pais não tão grande assim, é de se esperar que o conceito de privacidade não seja muito conhecido pelos indianos.


Comentários

  1. Em suma, a descrição bate exatamente com os "preconceitos". Gostei da arquitetura, - nunca tinha ouvido falar de Jaipur-, do relógio de sol e do restaurante vegetariano. A pimenta é saudável para um país muito úmido, combate bactérias. Cuidado com a água (só tome importada, ou vai ter diarreia). Há pedintes que entregam toalhas de papel no banheiro e pedem gorjeta. No Taj Mahal vai ter figurinhas que vão te dar ideia de fotografar o reflexo do palácio na água, você vai agradecer e vão te exigir 50 rúpias.

    Fazer o 2 em pé? No, thanks.

    अलविदा, अगली बार जब तक।

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    1. Arquitetura muito bonita mesmo ! Aguarde os próximos posts mostrando os palacios, tem cada foto...

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  2. Grande!! Muito bom ler sua visão sobre o lugar. Estive aí no ano passado (dediquei as ferias à índia e Nepal), quero ver como vc observa as coisas q vi. Sempre gosto da forma como vc coloca isso no papel.

    Estamos de férias na mesma época agora, estou explorando Romênia e sigo p terra do Pet! Sempre venho aqui p conferir o q vc fez.

    Aproveite!

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    1. Fala Marcelo ! Gostou do Nepal ? Eu tinha pensado em ir pra Kathmandu. Era uma das opções no lugar do Camboja. Romênia e Sérvia são lugares com ótimo custo/beneficio !!! Aproveite. Que bom que o blog ta ajudando na sua viagem ! Abs.

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