[Mochilão 8] Dia 1: Rio - Moscou

Fala galera !

Quanto tempo, heim ? Valeu a espera....Um ano depois, aqui estou eu novamente escrevendo no blog !!!! Este será o Mochilão 8 ! Mais uma grande aventura, dessa vez no Leste Europeu !

Meu plano inicialmente era ir para o Canadá e Japão. No final do ano passado comecei a pesquisar passagem, mas achei muito caro o trecho Canadá-Japão, ainda mais que não consegui juntar milhas suficientes pra tirar o trecho Brasil-Canadá. Eu ia gastar uns US$2500 só de passagem. Desisti de ir pra lá, e decidi ir pro Leste Europeu. Foi realmente muita sorte eu ter mudado de idéia, pois em março o terremoto no Japão e o desastre nuclear iriam arruinar minha viagem.

Ao contrário da viagem do ano passado, quando fui sozinho para a Ásia, esse ano vou com Rafael, um amigo aqui do Rio. Viajar com um amigo com certeza é bem mais divertido, mas não deixaria de viajar sozinho se ninguém pudesse ir comigo. Das 7 viagens de "mochilão" que fiz, 4 viajei com um amigo e 3 viajei sozinho. A questão é que nem sempre tenho a disposição um amigo que possa tirar férias na mesma época que eu, que tenha grana pra viajar, que tenha "alvará" da namorada pra viajar sem ela, que tope viajar sem a namorada, e que seja, acima de tudo, um amigo de verdade, porque se não for, é stress na certa depois de alguns dias. Rafael foi o escolhido da vez por reunir essas características. No ano passado, cada amigo tinha um problema diferente, e por isso viajei sozinho. O lance, nesse caso, é se hospedar sempre em albergues, onde também se hospedam muitos mochileiros viajando sozinho. Além de ser muito mais barato que hotel, é muito fácil fazer novos amigos e arranjar companhia pra tomar uma cerveja a noite ou dar uma volta pela cidade.

A aventura dessa vez começa pelo misterioso e obscuro mundo dos "R" e "N" ao contrário. A terra da temida KGB, do Kremlim, da foice e do martelo, da vodka, do Gorbatchov, da perestroika, e da glasnost: a Rússia ! Esse é um dos destinos que me despertavam mais curiosidade. É o maior país do mundo, se livrou do comunismo há apenas 22 anos, e foi o arqui-rival dos EUA durante a Guerra Fria. A Rússia ainda é fechada e pouco preparada para o turismo. Basta dizer o país atualmente exige visto dos maiores emissores de turistas do mundo (EUA, Alemanha, Inglaterra, Japão, França, etc). Como se não bastasse, o processo de obtenção de visto é extremamente burocrático, demorado e complicado. É praticamente feito pro turista desistir e escolher outro país (pelo menos comigo sempre funcionou assim). A moleza da isenção de visto passou a valer a partir do ano passado apenas para brasileiros, alguns vizinhos sul-americanos e outros poucos países do 3o mundo. Por causa do turismo pouco desenvolvido, a Rússia, longe do turismo de massa, ainda tem um viés de "mistério" no ocidente. A tendência é que isso mude aos poucos, principalmente após a escolha do país para sediar a Copa de 2018.

Minha irmã e o cunhado Fabrício já foram muito para a Rússia. Depois que vi as fotos que eles tiraram, e de escutar as histórias deles, coloquei o país na minha "wish list". O Fabrício, aliás, é o maior "russólogo" eu conheço. Jornalista, profundo conhecedor da terra da vodka, ele já foi diversas vezes a Moscou, onde tem muitos amigos. Já morou lá durante alguns meses, e fala russo fluente (é formado em Letras-Russo pela UFRJ). O blog dele, "Falando Russo" (http://www.falandorusso.com) é interessantíssimo, cheio de curiosidades, bizarrices, dicas de viagem e coisas engraçadas do universo russo. Além das dicas valiosas que ele me deu, o blog dele acabou me despertando mais curiosidade, me tirou muitas dúvidas e contribuiu bastante para eu ter escolhido a Rússia como meu próximo destino. Valeu, Fabrício !

Muita gente me fala que tem medo de ir pra Rússia pelo fato de praticamente ninguém falar inglês lá, e de tudo estar escrito no alfabeto cirílico. Depois da experiência de conhecer a China, acho que a Rússia vai ser molezinha. A primeira coisa que fiz depois de comprar a passagem foi aprender o alfabeto cirílico. Se aprender russo é algo que demoraria anos, decifrando aquelas letras invertidas eu conseguiria pelo menos identificar o nome de uma rua ou de uma estação de metrô, por exemplo. Confesso que foi bem mais fácil do que eu imaginava. Tem umas pegadinhas: "B" é "V", "C" é "S", "H" é "N", "P" é "R" e "Y" é "U". Tem outras letras estranhas que parecem números, como "З" (que é "z"), "Ч" (que é "tsh"), e "б" (que é "B"). Também tentei memorizar as expressões básicas de sobrevivência. Tem que saber perguntar, pelo menos, "você fala inglês ?" ("vy govorite po angliski ?")

Depois de passar por Moscou e São Petersburgo, vamos pra Berlim e Paris (cidades que já conheço, mas que o Rafael queria conhecer), e depois a aventura continua nos balcãs: Croácia e Bósnia. A Croácia já estava há vários anos na minha "wish list". Já tinha ouvido falar muito bem de lá, que é um país sensacional, bonito, habitado por lindas mulheres e tem o litoral do Mar Adriático, que bomba no verão. Na Dalmácia, região que fica no sul do país, ficam a estonteante Dubrovnik (a pérola do Adriático) e a ilha de Hvar, conhecida como a nova Ibiza, por causa das festas que bombam até o sol raiar com gente do mundo inteiro. Passaremos também por Split, a 2a maior cidade do país, atrás apenas de Zagreb, a capital.

De Dubrovnik, Rafael volta pro Brasil, e eu continuo a viagem sozinho, indo pra Bósnia, onde vou conhecer Mostar, uma pequena cidade próximo a fronteira com a Croácia, e Sarajevo, a capital. As pessoas por aqui ainda acham que a Bósnia é um país destruído pela guerra, mas ela terminou em 1995, há 16 anos ! Confesso que eu também achava que fosse um país em ruinas, mas depois de ler um guia de viagem sobre o Leste Europeu, vi que tem muita coisa interessante pra ver por lá. É um destino ainda pouco explorado turisticamente, barato e cheio de atrações. O que realmente me abriu os olhos para a Bósnia foi um episódio do programa "Não Conta Lá em Casa", do canal Multishow (http://multishow.globo.com/Nao-Conta-La-em-Casa). Depois de assisti-lo, me interessei muito em conhecer Sarajevo. Esse programa, pra quem não conhece, é sobre as aventuras de 4 loucos que visitam países que ninguém em sã consciência gostaria de conhecer, como Irã, Iraque, Etiópia, Coréia do Norte, Mianmar, Afeganistão e outros lugares pra lá de legais. Na última temporada, eles foram para os balcãs, passando pela Albânia, Bósnia, Sérvia e Kosovo. A idéia do programa é derrubar preconceitos, mostrando que lugares diretamente associados a guerra e pobreza podem ter um lado cultural muito rico, um passado glorioso, atrações turísticas interessantes, e um povo receptivo e hospitaleiro. O programa sobre Sarajevo me chamou muito a atenção por mostrar uma cidade que conseguiu se recuperar totalmente da guerra, e hoje é uma cidade animada e festeira. É conhecida como a "Pequena Istambul" por causa da influência turca. A Bósnia foi dominada pelos turcos otomanos durante 4 séculos, e por isso, é um país de maioria islâmica. As cicatrizes da guerra com os sérvios entre 1992 e 1995 foram transformadas em atrações turísticas, como o emblemático túnel secreto de 800m que foi construído pelos bósnios durante a guerra ligando a cidade a uma área dismilitarizada ocupada por soldados da ONU, com o objetivo de abastecer a cidade de água potável, mantimentos e armas, pois ela foi totalmente sitiada pelos sérvios. Durante os 4 anos de guerra, ninguém conseguia entrar ou sair da cidade se não fosse pelo túnel.

Segue o link de alguns vídeos mostrando trechos do episódio sobre Sarajevo no "Não Conta lá em Casa". Muito interessante !!

http://multishow.globo.com/Nao-Conta-La-em-Casa/Videos/_1405154.shtml

http://multishow.globo.com/Nao-Conta-La-em-Casa/Videos/_1405059.shtml

Sarajevo me faz lembrar imediatamente uma das minhas músicas favoritas: "Miss Sarajevo", gravada em 1995 no auge da guerra pelo U2 com participação do Luciano Pavarotti. Ela conta a história de um emblemático e inusitado concurso de beleza para eleger a Miss Sarajevo em plena guerra, no meio do fogo cruzado, simbolizando a esperança que o povo bósnio tinha de dias melhores. A letra, segundo o próprio Bono Vox, reflete o sentimento do povo bósnio durante a guerra. O clip mostra cenas da guerra e termina com as participantes do concurso segurando uma faixa com a frase "Don't let them kill us". Enfim, uma obra prima ! Segue o link do clip: http://www.youtube.com/watch?v=smPKQSHnaXk

Um outro lugar que eu queria muito conhecer é Belgrado, capital da Sérvia, terra do Petkovic ! Ela é conhecida por ter uma das melhores noites da Europa, ser barata e ter um povo muito hospitaleiro. Mas desisti de ir pra lá porque a Sérvia é um dos últimos países europeus que ainda exigem vistos de brasileiros, e o processo é complicado, porque não tem consulado aqui no Rio. Tem que mandar o passaporte pelo correio pra embaixada em Brasília. Sem chance... Preferi deixar pra uma outra oportunidade.

A viagem continua rumo a Polônia. Muitos amigos já contaram maravilhas de lá, e não poderia deixar de conhecer a terra da vodka. Ué, não é a Rússia ? Também. Na verdade, os dois países disputam o título de "inventor da vodka", hehe ! Vou passar por Varsóvia (a capital) e pela bela Cracóvia.

Depois é a vez dos países bálticos: Lituânia, Letônia e Estônia. Passarei pela capital dos 3 (Vilnius, Riga e Tallinn, respectivamente). Só tenho um amigo que passou por essas cidades, e ele me recomendou fortemente conhecer as 3. Depois de devorar o Lonely Planet Eastern Europe (a bíblia dos mochileiros), vi que tem muita coisa legal pra ver por lá, com um excelente custo/benefício e acho que tem chance de ser o ponto alto da viagem. O engraçado é que sempre que falo vou pra estes países, as pessoas tem a mesma reação: arregalam os olhos, me olham com espanto, como se eu estivesse ficando louco, e começam a perguntar o que eu vou fazer lá, o que tem de interessante pra ver lá... É verdade que estes são países praticamente desconhecidos por aqui. Até pouco tempo, só tinha ouvido falar da Lituânia por causa da seleção de basquete deles que é fortíssima e sempre dá trabalho pro Brasil. Lembrava vagamente desses países também por causa das aulas de história no colégio no início dos anos 90, na época em que o comunismo caiu e estes países conseguiram a independência. Até então, faziam parte da antiga União Soviética, junto com outros países que também conquistaram a independência, como Ucrânia, Azerbaijão, Uzbequistão e diversos outros "ãos".

A viagem termina com a "cereja do bolo": um final de semana em Madri, uma cidade que adoro e onde tenho muitos amigos. Vai bombar !!! Já estive lá em 2005 e 2006, e não poderia perder a oportunidade de matar a saudade dessa cidade que está com louvor no meu "TOP 10" . O que eu mais gosto de lá é o espírito festeiro dos madrilenhos. É a famosa "movida madrilenha". O vigor da noite de Madri é impressionante. Começa sempre bem tarde, e parece não ter fim. É uma Buenos Aires elevada a décima potência. E tem aquele hábito de peregrinar de bar em bar tomando "caña" (chope) e degustando tapas, que é irresistível.

37 dias depois, é fim de jogo ! Hora de voltar pra casa e matar a saudade da terra brasilis.

Segue o roteiro completo:

20/mai Rio-Moscou
21/mai Moscou
22/mai Moscou
23/mai Moscou
24/mai Moscou-São Petersburgo
25/mai São Petersburgo
26/mai São Petersburgo
27/mai São Petersburgo
28/mai São Petersburgo-Berlim
29/mai Berlim
30/mai Berlim
31/mai Berlim
01/jun Berlim-Paris
02/jun Paris
03/jun Paris
04/jun Paris-Split
05/jun Split
06/jun Split-Hvar
07/jun Hvar
08/jun Hvar-Dubrovnik
09/jun Dubrovnik
10/jun Dubrovnik
11/jun Dubrovnik-Mostar
12/jun Mostar-Sarajevo
13/jun Sarajevo
14/jun Sarajevo-Varsóvia
15/jun Varsóvia-Cracóvia
16/jun Cracóvia
17/jun Cracóvia-Vilnius
18/jun Vilnius
19/jun Vilnius-Riga
20/jun Riga
21/jun Riga-Tallinn
22/jun Tallinn
23/jun Tallinn
24/jun Tallinn-Madri
25/jun Madri
26/jun Madri-Rio

O mapa da viagem:

Fotos de alguns dos lugares por onde vou passar:

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Termino o post com sábias palavras do navegador-aventureiro-louco-pensador-filósofo Amyr Klink, o idolo máximo de todos os aventureiros. Para quem não lembra, ele é aquele malucão que cruzou sozinho em 3 meses o Atlântico num barco a remo (recomendo o livro: "Cem Dias Entre o Céu e o Mar"), depois passou 1 ano velejando (também sozinho) na Antártida, sendo que durante 7 meses ele ficou encalhado numa geleira (!!!) Não satisfeito, velejou da Antártida ao Pólo Norte, e de lá voltou pro Brasil (!!!!!!!). Tem que respeitar o que o mestre diz ! Afinal de contas, ele definitivamente não é qualquer um !!!

"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver". (Amyr Klink)

Esse sabe muito ! Vida longa ao mestre !!! Nada como passar um tempo fora de casa para nos ensinar a dar valor ao que é nosso. Conhecer os outros "capítulos do livro" é fundamental pra que alguém possa ter certeza de que o seu "capítulo" é o preferido, mesmo com todos os seus defeitos. É importante para entender que há outros "capítulos" tão bons quanto o seu, mas que o seu é o melhor simplemente porque é o que te faz feliz, é o que foi escrito especialmente pra você. Nada como seu próprio chuveiro, sua própria cama, seu próprio travesseiro, sua própria casa. Nada como matar a saudade da família e dos amigos. Nada como saborear a comida da mãe, depois de conhecer paladares tão exóticos, e poder dizer com certeza que é a comida a mais gostosa do mundo. Nada como curtir um dia de praia absurdamente ensolarado em pleno inverno, depois de quase congelar no verão de algum país distante. Nada como degustar uma picanha bem suculenta com feijão e farofa de ovo no seu restaurante preferido, e tomar um chope gelado rodeado amigos no final da tarde no seu bar favorito. Ficar longe de casa por um tempo nos faz enxergar com outros olhos as coisas simples da vida que nos fazem felizes e o dinheiro não compra, mas que a rotina e a correria do dia-a-dia às vezes não nos deixa perceber. A saudade é mesmo um sentimento estranho. Ao mesmo tempo que dói, serve para reafirmar o quanto amamos o que a perda temporária nos tirou.

Bem, chega de blá, blá, blá, agora é pé na estrada ! Mochila pronta, passaporte na mão ! Partiu agora pro Galeão ! Fui !!! O próximo post já será na terra da vodka !!!

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